quarta-feira, 18 de março de 2015

Rumor

as águas beijando, persistentes, a margem: palavras repetidas numa toada morna, cantada em surdina; um rumor intervalado, um rumor contínuo, um rumor calmo, um rumor sem tempo, um rumor a tempo do amor...
A longa margem embalada, diluindo-se doce, como se por um pequeno sulco sangrada. E ínfimas partículas desse barro primordial (des)fazendo-se ao largo espaço do mar; tudo passando tranquilamente, num vazamento paulatino, outra coisa que não largamente consentido, dum lado para um outro e desse lado para um outro ainda, e assim sucessivamente, como um passo a seguir ao outro, cumprindo, tão-só, o devir do mundo... 
(2004)

(c) Filipe M. | texto & fotografia (Lisboa, 2014)



terça-feira, 17 de março de 2015

Suposição

Inaugural:
Não fui,
Não sou, 
Nem serei,
O que supus.
Não sou, por certo, o meu escrutínio, nem por incerto me acho ou perco no dos outros achar; 
Nem salvado no mar do meu,
Sonho asado 
De voo magoado.
O jugo?
Nem grande, 
Nem pequeno,
Nem assim-assim,
Há piores carregos 
(arremedo).
Nem d'aquém, 
Nem daqui, 
Nem d'além: 
De ninguém [mas filho de pai e mãe!].
De mim mesmo? 
As manhãs na mesa do pão nosso de cada dia (e)
A noite donde volto sem filhos nascidos, Filho-pai de pais envelhecidos de si esquecidos.
E no solo o corpo dizente  
Dos caminhos pregressos, 
Tantos quantos os nomes que trago silentes."

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2015)

segunda-feira, 16 de março de 2015

Diptíco (II)

Meu amor e digo hoje, daqui, deste lugar ameno que sou, que as palavras sentaram-se à mesa do silêncio conversando a própria voz. 
E deste fez-se um outro no dentro daquele: como se do sal que mata o que nasce p'lo chão se abrissem as janelas das mãos e ouvisse o canto primeiro da manhã. E no mesmo passo com que entraram, saíram, uma a uma por seu pé, todas as palavras outrora entradas para que o que houver que sair o faça p'lo caminho da paz e com a mesma inteireza do que se foi capaz e para que haja lugar (em mim) para o novo que se faz.

(c) Filipe M. | texto & Fotografia (2015)

Diptíco (I)

Meu amor, saí cedo. Talvez não tão cedo assim. Saí. Deixei tudo como gostas (ou penso que sim). Deixei as coisas nos lugares certos; o resto trouxe comigo. Andam comigo, as coisas; são leves de peso e pequenas de tamanho, ainda que a um tempo me sejam leves e noutro pesadas, umas vezes pequenas, outras tão grandes. Ou peso-lhes e tamanho-lhes eu; não sei bem. Saí porque a boca tinha o travo do alcatrão: palavras que não se fizeram caminho. Bem sei, as palavras não existem. Mas creio que relatam o que existiu e assim sendo, existem. 
Houve uma ou outra coisa que se partiu; enfim, parte-se sempre qualquer coisa. O zelo foi o de sempre mas talvez estivesse nervoso, não sei bem. Deixei tudo como supus que gostas. Era noite sabes, a saber a manhã e talvez assim o pense porque é luz o que pensamos na escuridão. Tentei não acordar-te; sim, dormias. Sair dá mais medo que entrar. O trinco faz um clique e somos o lado de fora. 
Um dia disseste 'tenho sede' e nesse dia fiz-me água. Nesse dia disse-te 'mas e os copos,  Amor?' E disseste 'os corpos'! 

(c) Filipe M. | Fotografia: Lisboa, 2014. 




quinta-feira, 12 de março de 2015

Estranhamente

Estou de fora e vejo-me; tenho-me visitado pouco e as conversas, de mim para comigo, para além mais escassas, têm sido marcadas por um sentido ténue, mas crescente, de ausência. Acontece-me sentir saudades. Saudades do convívio ameno de ambos, em que qualquer dissidência era prontamente aplacada e arrumada na memória breve das coisas irrelevantes. Foste-te desligando do fluxo do quotidiano, da toada monótona, mas salvífica, dos dias. Há em ti uma sorte de não-vida; uma coisa não muito ostensiva, não muito vincada; antes um pequeno indício bem-educado distribuindo urbanidade, mas que na sua natureza última antítese daquilo que dá a ver. Há em tudo um alinhamento irrepreensível como um catálogo: um espaço-sem-espaço. E bem sei que por mais que até queiras gritar, por mais que ciclicamente prometas o regresso do caos, há sempre esse vidro frio (de lágrimas) afogando as tuas palavras no seu silêncio transparente. E nessa atonia, em que todos os jardins desflorescem e todos os rios se ausentam, irradia essa luz refractada, bela quanto perversa, ou um farol destinando à morte os que se amam na noite.
Filipe M. (2004)

(c) Filipe M. | Fotografia: Lisboa (2015)


sexta-feira, 6 de março de 2015

Primavera

Oculto-me no que revelo
Produzo margens 
Simétricas margens
Margem com margem 
Eu deste lado a ver-me deste lado
Eu deste lado a supor-me o outro 
De lá para cá e de cá para lá 
Como se fosse o mesmo uma e outra coisa, sabendo tão bem que assim não é; 
Vendo-me vendo-me (e só)
O rosto une desiguais
Metades 
O meu rosto é um rio 
Produzo rios quando olho 
Produzo mares quando digo
Produzo os nomes dos lugares 
Entre mim e ti há a vírgula 
Do corpo de permeio 
E nós o meio 
E nós metade 
Sem verdade, nem vontade 
Nós outrora 
e o canto breve e alto das aves 
Nós primavera a pairar e nós um arco de lado a lado para que nos víssemos passar a nado num rio certamente inventado, um de cada vez, uma e outra vez, de lado a lado
Da margem, esta ou daquela, há já tanto tempo que do tempo dessa água se fez sol em nuvens de sonhos condensados 
E produzo chuva 
para que 
de novo 
nesse 
lugar.

(c) Filipe | Texto e Fotografia: Bica (Lisboa), 2013.

quarta-feira, 4 de março de 2015

No abraço

Expando-me no dentro. 
Do espelho o convexo 
Dum pretenso real 
Da respiração a possibilidade
Do corpo subindo e descendo
No mar do abraço as pás
Do moinho a cada sopro
Escrevo a linha de costas
Voltadas ao que do amor 
Antecipei em dor.
Filipe M. 

(c) Filipe M. | Fotografia: Lisboa, 2015.