segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Percurso

Era como se tivesse saído do curso 

Do rio e o percorresse inteiro pelas 

Cesuras das baínhas; são margens

Calças arregaçadas de água fresca

Salpicadas, um sorriso a montante, 

Baptismo festivo do novo dia nado! 



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2016)

Aniversário

Hoje é domingo de manhã de há um ano;

Hoje é verão do mesmo canto de agosto;

Hoje trago a flor branca que levo do mar;

Hoje, como ontem, meu pai eternamente.



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2016)



Laterais

À boca da nascente, nascemos todos rio em 

Penhor da foz; metonímia do mais vasto mar. 

Todavia, há aqueles cujo viver gera margens;

O caudal é forte e nem sempre os braços se 

Afoitam. Acontecem ficar represos e laterais.

Indevido curso. Um apeadeiro é descaminho

Se se faz lugar mais do que breve. Marginais

Dizemos embarcados!! Descreio. Corre-lhes

Dentro o rio sem rumor para nós tão surdos! 



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2016)

sábado, 24 de setembro de 2016

Pausa

Nas pausas, no que se interpõe, no que se 

evapora, no que se aquieta, no que se cala 

Vêm, vagorosos de tímidos, de antanho, os 

Sons que tecemos: um tear que montámos 

De braços, de abraços, das palavras: bojos

Da Arca de Noé para nossas justas viagens

Um beijo a quatro lábios e d'olhos pintados 

Pretextos vagos de sermos frente-a-frente 

O sabermos e do medo que temos inventar

Um dia que o destrua e tocarmo-nos. Dois 

crentes; no recreio a vida seus lápis de cor 

Que trazemos no estojo dos olhos e beijos

Dados são agora pássaros que voámos no

Céu inda agora desenhado, onde cabes tu 

Agora na varanda da eternidade. Eles vêm

Por nós trazer-nos seus sons musicais, as 

Mãos em oferta que nos afagam, amando.



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2016)

Gravidade

Nascidos os frutos, árvores 

Trouxeram a nova estação. 

O beijo caiu sobre a pele. 

Não imagino coisa mais 

Bela tua ceara: a noite

Escura à Lua despida.



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Segredo

Este momento; este tão íntimo momento; tão curto

Tão longo aqui dentro momento. Um murmúrio um 

Véu sopro do céu tua mão como a quilha do barco 

Quase imóvel de movimento sentindo a corrente e

Sabe agora o segredo mais fundo, fecundo corpo

O dirá a um outro quando a hora chegar. O tempo 

Do silêncio, do vento, da canção cantada, embalo 

Maternal quando no fim tudo começa. Um timbre,

Repercute no ar límpido o som da nota da aurora 

E em seu voo há os meus dedos a desenharem o 

Teu lábio e uma segunda vez o teu outro lábio da 

Tua boca são notas, partitura do meu mundo teu. 

E cantas a nossa mais antiga canção. Inventando

Possibilidades, demos as mãos e começámos os

Corpos devagar; deixámo-los falar. Nessa espera 

Fizemos amor para o dar no momento das sedes 

Sim, virá o tempo até que por findo o tomaremos

Por tão longo, por tão curto, por tão isto e aquilo

E nesse instante, no ponto agudo, haverá a água 

Para a bebermos na torna-viagem de morrermos. 



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2016)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Emily Dickinson

A uma luz evanescente

Vemos mais agudamente

Que à da candeia que fica.

Algo há na fuga silente

Que aclara a vista da gente

E aos raios afia.

[Emily Dickinson]

(Trad. Jorge de Sena)



(c) Filipe M. | fotografia (2016)