Quando digo meu amor
Tu enunciado denúncio.
Não por tê-lo por certo
Incerto diz-se amanhã!
Mas porque invocar-te
A voz meu breu aclara
Vendo-te tangível dou
Um passo adiante no
Que retive; enquanto
Ficármos abraçados
Em afeição perdure.
Quando digo meu amor
Tu enunciado denúncio.
Não por tê-lo por certo
Incerto diz-se amanhã!
Mas porque invocar-te
A voz meu breu aclara
Vendo-te tangível dou
Um passo adiante no
Que retive; enquanto
Ficármos abraçados
Em afeição perdure.
Se, no lugar de dizer como deveria ser,
Visse desprendidamente como é; se me
Permitisse ver seu ser ser tão simples, se
Deixasse que sua razão de ser chegasse
A mim, tal como o aroma do café adianta
Seu travor, talvez me apercebesse que é
Inteiramente certo o seu jeito de ser p'ra
Que, a tempo, meu desacerto corrigisse.
Soubesse cantaria o mais alto dos cantos
Que me guindasse quando baixo faz meu
Olhar alta a altura da luz e pensá-la assim
Distante quando, em verdade, sempre ali!
A banalidade um caminho difícil d'aceitar:
Bebedouro donde tão poucos bebem ser
De excepção; ninho o canto-chão donde
Partem comuns como os demais e, cedo
Maiorais, inumanas aves o são. Pudesse
Eu cantar as alturas imensas dum canto
Total, o canto dos seres imortais. Mas e
Aqueloutros cujo canto se faz sem voz?
A heroicidade de quem vive o comum!
Transparência que fere e crua derruba
Por quem nunca nada vê. Tivesse voz
O dizer meu canto quem do seu chão
Inda assim, fez alto seu peso imenso!
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
Comment veux-tu que je t'oublie ?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais,
Toujours, toujours je l'entendrai!
[Jacques Privett, Joseph Kosma]
O sol pede o fora, a chuva o dentro.
O dentro-fora dum alpendre, duma
Janela cuja vidraça reflecte este lar
Ou esse. Afetos, como as primeiras
Mantas, um abraço que vem detrás
O assobio da chaleira ao lume, chá
Quente em bules de avós falecidas
O piano das gotículas nas vidraças
Ó paz uterina da água do céu regai
Os chãos a terra a rua os telhados;
A nós sequiosos porque o sol abre
Campos planos rente dor saudade.
A chuva canta o silêncio como voz
Mater vinda de fora e nos convoca
E nos demora na cama o amor que
Nos ficou ou que partindo ficou ou
Que ainda não chegou como a flor
Se parece ao copo d'água do beijo
Assim a chuva baptismal é altar do
Mundo breve. A chuva o teu rosto;
No teu rosto molhado, roupa chão
Seu despojo, há corpo que é meu
No ínfimo momento do abraço em
Que te fecho e sinto aceso desejo.
As palavras têm portas mágicas para que as
Entremos; são coisas móveis que trazem em
Si, se as lermos e as dissermos pensadas ou
Faladas como balões de hélio fartos subindo
O acordar seu torpor, sentimentos e lugares
De amor, pensamentos quase gestos, fins e
Começos, mundos reais e irreais, confissão
Dum querer, do abandono porque se viveu
Aquém ou demais tempos órfãos de lugar.
São depois e antes de nós: assim seja vez
De nascer e dizer mãe e pai ou hora de se
Morrer e, segunda última vez, o dizermos
Preces tão vãs: ah meu pai e minha mãe!