sábado, 11 de março de 2017

[Retoma] 🖋

Naquele instante preciso, algo triste.

Um gesto quase toca a corrente d'ar

O prumo da luz vitral amorna a tarde

Superfície da pele do corpo imaterial.

Ao redor o vozear contido e regentes

As mãos do fraseado dos lábios cujo

Movimento acompanho vago. O café

Desprende volutas de vapor, biombo 

De momentânea distração passando

Por aqui e ali. Como alguém a fechar

Uma janela ao frio do inverno e volta 

Ao dentro da casa e afazeres diários

Um aquário com vista ao céu e voos 

De pássaros de mar em terra à vista 

Horas de langor de curta eternidade 

Tudo parece quieto, insolente gesto 

Mínimo que seja como um amante a 

Adiar o deslaçar dos corpos em par.

Não tanto pelo facto de estar tão só

Nem por dó de si. O afago lúcido do 

Por fim ou do ainda não (ou o talvez 

Jamais) coloca-te perante ti mesmo

E a especulação tentadora de quem 

És e foste ou o que para ti reservam 

Os dias vindouros. Feliz é o instante 

Momento inteiro o círculo que fecha 

Logo o que começa, além disto tudo 

São grilhetas. Descentro-me resisto

À tentação do Eu. Recomeço em dia

P'lo que me dás a ver retomo alegria.


(c) Filipe M. | texto e fotografia (2017)

quinta-feira, 9 de março de 2017

[Antes de Começar] *

E aqui nos desencontramos 

Dos caminhos desenhados!

Do amar-te imperfeitamente 

Alento animado fim de festa 

Porque acaba o que começa

Perfeito não supõe ninguém!

No desacerto há o teu e meu 

Eixo, rotação translação astro

Rutilante manhãs nos demos! 

Só apouca o havido quem por 

Si se traz pequeno já de antes. 

(*) Almada Negreiros



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2017)

terça-feira, 7 de março de 2017

[Pergunta]

Saio como entrei não entrando não saindo 

Acrescido de ti que cresceste em mim; eu 

Que nada quis tive mais do que pedi; quis 

Muito mais que nada tão menos que tanto

Que nunca me atrevi pensar que era para 

Mim. Pergunto-me se pensas em mim no 

Longe; de quando em vez pelo menos. E

Que nasçam lábios dos sorrisos nossos!



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2017)

segunda-feira, 6 de março de 2017

[Rotação]

Ouvi e não me foi dito 

Vi o que estava oculto 

Falei calado fui sem ir 

A nenhum lado, amei 

Sem ser amado, não 

Pedi e tudo foi dado. 



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2017)

domingo, 5 de março de 2017

[Ampulheta]

Há tempestades quase perfeitas - é seu este 

Momento. Paras e vês formar-se uma parede 

De água. Sabes que é uma onda que desaba. 

Se te pensares como um barco naufragas, se 

Peixe te tornares, serás tu mesmo vaga onda.



(c) Filipe M. | texto e fotografia (2017)

sexta-feira, 3 de março de 2017

[Devagar]

Ainda é dia oito. Importa pouco o mês e ano. 

A lombada dos livros o piano das tuas mãos;

Ressoa o silêncio: partitura doutras melodias

A pedra atirada ao rio já não arredonda como

Ainda há pouco (ainda é dia oito e um relógio 

Tic-tac-tic-tac) a água-rio dança em círculos 

Crescentes. A água reganhou a superfície lisa 

E a pedra acamou no leito. É curioso meu pai:

A mesma pedra no mesmo rio e há medo de

Que a paz que nos dizes não a entenda eu.


Ainda é dia oito e há relógios: o meu o teu o 

Relógio da sala, sentinela do tempo laico da 

Casa, agora todo de Deus: Campanário Alto 

Onde não chego eu. É Seu o 'Sino da Minha 

Aldeia'. O piano dos livros, o tic-tac-tic-tac 

Dos relógios dos pulsos das mãos. Os teus 

Olhos olham cada vez mais e acontece tua

Boca ter ("já gastámos as Palavras pela rua 

Meu amor") caminhos emudecidos. Ouviam 

tanto os teus olhos. As lombadas dos livros, 

Os teus óculos, vês melhor sem eles! Vêem 

P'ra lá disto e não o saber eu sabendo-o eu.

Os meus cruzam os teus e não falamos por 

Isso ou não, dura esta conversa. Já tirámos

Os relógios? É só amanhã que te tem Deus. 


Tic-tac-tic-tac! Os livros: ando a ler as tuas 

Mãos de papel. Ouves o som do piano? São 

As minhas mãos a tocar cada lombadada. A 

Ter-te devagar. Tic-tac-tic-tac. Já é amanhã?




(c) Filipe M. | texto e fotografia (2017)

quarta-feira, 1 de março de 2017

[Baile de Máscaras]

Por sobre as máscaras 

Fui pondo várias caras 

Ando assim disfarçado

Rosto cansado e alegre 

Saudoso ou enamorado 

Com a verdade engano

Não é a nudez que diz 

O íntimo, mas a roupa 

De que nos despimos. 




(c) Filipe M. | texto e fotografia (2017)