terça-feira, 27 de outubro de 2015

À chegada

Cai uma lágrima doce de 
Água na face lisa e porosa.
A pele sempre foi a boca por 
Onde se bebe o corpo do corpo.
Havia um lago no debaixo de nós
Que a recebeu ou o sopro ou quase
Uma onda ou quase o bater da asa
Repercutindo como a trombeta do 
Arauto o anúncio da sua chegada 
A todos os pontos da cintura da 
Margem por igual ou um círculo 
Um anel magoado que se tira 
Relutante do dedo enoitado. 
E há um barqueiro que nos 
Anda de lado a lado pelo
Redondo de não irmos 
A nenhum lado senão 
O dentro de que se 
Faz nosso viajar
Ensimesmado. 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O impante

Enxovalho tem vida própria pois se diz que quem pelo ferro mata por ele morre. É que debaixo do veludo afinal sempre espreitou o sabre. Os modos doces, os gestos enfeitados duma urbanidade sem cidade e raspas de piedade. Nem era caso para tamanho e vil transtorno: Não era refeição de se servir fria. Foi muito acaso ou despeito afetado e tiques de rasteira burguesia em cujas pratas grotescamente se reflecte. Impante, passeia sua ignorância malsã, sorriso de dentição afiada em boca apertada. Plim! Adiante que vem dia mas têm Razão aqueles que dizem ser prudente temer os justos; deles virão todas as iniquidades e inclemências em punhos brancos de renda vestidos estes ditosos. São anjos vingadores. Incautos quase os tomamos por pessoas. Vá de retro e em riste um destemido dente d'alho.

(c) Filipe de M. | texto e fotografia (2015)

domingo, 25 de outubro de 2015

A mão

Pela repetição, a abstração;
Pela abstração, a liberdade;
Pela liberdade, a compreensão;
Pela compreensão, o amor;
Pelo amor, a aceitação.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Entardecer

A voz que tenho cala 
Hoje mais do que diz.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Repergunto

O que é uma escada? 
Os degraus e os seus
Materiais; repergunto:
O que é uma escada?
O que me leva em pés
Do abaixo ao acima e
Do acima ao abaixo?
Então uma escada é
Um meio contendo 
Um fim; assim to 
Digo a mim: ser 
É cumprir-me 
Até meu fim.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Cada coisa

Cada primeira coisa 
É dessa coisa a sua 
Última. Uma anula a
Outra. O que avulta
É o que fica: a coisa 
Por si mesma basta.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)


Co(r)po

O beijo da pele ou
Viajar por dentro o 
Teu nome do dizer 
Longamente nome 
Como o lugar onde 
Beber da sede que 
Tenho de ser agora 
Mais do que futuro 
Por enquanto digo.
Nu lugar do corpo 
Um copo que pede 
A boca que o toca 
Libação no altar de 
Todos os prazeres. 

(c) Filipe M. | Texto e fotografia (2015)