quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Assimétrico

Duma certa maneira houve apenas aquele dia; ou o momento daquele 
Dia. Desde então: esse dia e o seu Momento. Umas vezes esse tal dia Muitas vezes, por vezes, nenhuma. Extremos convergentes no entanto divergentes em si mesmos. Somos muitos, para lá de tantos, e são os 
Dias de cada um e muitos os seus momentos e tantos os frutos doces 
E amargos da metáfora que somos. 
Um tende a ser outro: momento dia 
Dia momento; um tingindo o outro o 
Outro atingido um. Cada um atende 
À parte comum melhor fôra de que 
Não houvesse notícia de nenhum! 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Vasto diminuto

Já só tenho o 
Vasto tempo 
Que me resta
Tão diminuto
Tempo onde 
Intacto cabe
Tudo. Cabem
Todos os idos 
E os vindos O 
Velho e o novo 
Até mesmo tu 
Que tanto me 
Faltas d'amor! 

(c) Filipe M. | texto e fotógrafia (2015)




terça-feira, 6 de outubro de 2015

A água da flor

A boca um exército adormecido.
Acordai a palavra que desperta 
A que edifica e que nos levanta 
A mesma que derrota e corta e 
Adia e nos mata a palavra dita 
A palavra maldita que interdita 
A boca que beija ou a mesma 
Que encena a palavra falsa ou 
A que se arrepende a mesma 
Que nos chove dos olhos as 
Lágrimas choradas a boca 
Estuário a água da flor a 
Palavra que perdoa que 
Me eleva que te traz a 
Palavra redentora a 
Palavra toda ela a 
Paz que procuro
Exército indolor
Procuro amor 
Encontrar-te
E dizer pai 
Mãe e tu 
D'amor 
Capaz! 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sermos

Se pelo princípio do Belo 
Digo contê-lo, então digo
Que prossegui-lo é um fim
Cujo início se faz em todos 
Nós, como em cada um um 
Canteiro ou um jardim. Sê-lo 
Não como um círculo fechado 
Mas como o aberto comungado. 
Então digo que o contemos na 
Parte. Então beijamos ao de 
Leve a Verdade. A instância,
De todas a mais alta, do 
Sermos em Amor. Único
Humano Absoluto. ➰

domingo, 4 de outubro de 2015

VII

Gostar de ti terá o tamanho
De caber eu os sonhos e tu.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O Bilhete

Por enquanto aqui. Não por cá, um 
Mal disfarçado encolher de ombros 
Que me nego. Cá; aqui. Diziam que 
Colheríamos as flores dos caminhos. 
As flores são prendas para que as 
Contemplemos; plantá-las para que 
Mais hajam. São escassas, sempre 
Poucas ainda que as digam muitas. 
E descaminho; a passadeira que se 
Enrola aos passos já percorridos e 
Se distende no que houver ainda a 
Dizer com os pés. Ah se estes dois 
Falassem! Calava-se o mundo para 
Ouvi-los. Quantas palavras, quantas 
Lágrimas, quantas facadas e mortes 
Simbólicas se apaziguaram nas ruas
Das cidades que trazemos de dentro 
Para fora. Por enquanto. Os favores 
Da luz, o vento brando sobre a pele. 
O olhar que sorri, a inclinação da luz 
A dar-nos o dorso e vamos felizes à
Boleia para a parte incerta de nós a 
Que comporta tudo o que ainda não 
Dissemos, o que ainda não vimos, o 
Que ainda não fizemos. Depois, no 
Longe do mar desenhamos o barco
A aproximar-se; surge o passadiço 
E subimos e há um círculo que se 
Fecha lídimo porquanto se ganha 
O justo bilhete da Viagem. 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A Visita

E és chegado aqui, ao amplo 
Espaço: de mim e das tantas 
Ausências. Podes entrar por 
Essa porta que fiz para que 
Entrasses. Sairás no tempo 
Que julgares certo. Intervalo 
É isto: a sala só de ninguém. 
O instante (de minutos horas
Dias meses anos) que dizes 
Que contas deitar à vida ou 
Contas do ábaco das mãos
Um punhado de dias assim 
Outros assado e momentos 
Resumos dos diários que te 
Escrevo para que esqueças
De mim, ser desencontrado. 
Faço o tempo envelhecendo, 
Olho os retratos tão quietos 
São fitas de cinema com as 
Vozes originais silenciadas,
Dobradas com as vozes do
Tempo em que me falavam. 
Minto se disser que já não 
Espero; mas não sei o quê, 
Nem por quem. Sou a praia 
Não tenho como negar mar 
Mas sabes parece que toda 
Aquela imensa água ficou lá 
No fundo inatingível de mim 
Onde a sede que tenho está 
Apenas um passo atrás, um 
Passo desesperançado de ti. 
Podes sair; fiz esta porta 
Para que pudesses sair! 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)