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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Novelo

Refaço começos assim como os novelos são rumos de lã: compromissos do querer entre as mãos e o olhar. 
O deixar andar não é nem andar nem lugar para ficar.
Andar não é coisa que se deixe; 
é coisa de se fazer com os pés, por assim dizer.
Faz-se e refaz-se o que se desfaz como quem monda a terra porque é dela o alimento.
E assim como as searas crescem sob o olhar branco da lua, têm meus os sonhos alto patrono: o sol a nascente e a poente, no rir e no chorar.

(c) Filipe de Macedo | texto e fotografia: Madeira (2014). 

domingo, 18 de janeiro de 2015

O ontem amanhã

Possas tu
Parti (por ti)
Quisesses tu salvar-me [de mim]
Vem abaixo da pele e abre portas para que possa sair [de mim]
Acende a manhã porque se fez noite [em mim]
Vem buscar-me porque fiquei aqui 
Neste lugar de ontem.
Dá-me um céu para onde olhar e sair possam do mesmo chão estes pés feitos para outro caminhar
Dá-me a mão, como o farias a um cego, e dar-te-ei a minha e seus rios de amar
Dá-me o teu silêncio e serei (nas) palavras inauditas 
Diz-me como regressar-me e (para) quem sou. 
Reparo que vivo. 
Mas, sabes, é por fora que vivo. 
Quando regresso em noite e quando me deito há casa e cama mas não me sei, nem para onde;
Percorro a noite até a cansar, para que por fim me deixe dormir e volto a ti, como uma evidência, como o lugar que fui. 
Naturalmente haverá uma manhã e serei amanhã sem amanhecer e imitarei o dia até ao fecho do seu arco. 
À saída da barra, donde a viagem, e os olhos longos e os cabelos, teus,  na moldura do rosto, revoltos como as aves do séquito, vi-te, assim, inteiramente tu, e soube da alvorada e fui, ali, naquele preciso momento, feliz; como antes, como, talvez, depois.

(c) Filipe M. | texto e fotografia / Madeira, (2014). 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Ígneo.

Acende-me 
Arde-me
Destrói-me
Morre-me 
Por uma vez, inteiro 
Por uma vez, derradeiro.

(c) Filipe M. | texto e fotografia / Londres, (2014). 


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Religar

Às vezes, consegue-se: a suspensão de tudo. Um abrandamento da máquina e tudo em nós num mínimo básico - funções vitais. 
Não há corpo, nem tempo. Torpor. Uma sensação tépida, uterinamente cálida. Imerso, quase na totalidade, com os olhos fitos exactamente na linha de água; e estou ali. Num silêncio aquoso numa profunda paz. Gosto daquele azul que tinge a água do pigmento da luz. 
É um regresso, em sensação, a um estar inicial. E olho aquele corpo transfigurado, ondulado, impreciso, não meu, e percebo-o saciado. Quieto, finalmente! Dessa fome de existir que se impõe por vezes demais. 
Ali, naqueles instantes frágeis, tudo é difuso: o ontem sem mágoas, o futuro em branco. 
Até o som parece um pássaro esvoaçante de inquietação quando acontece entrar ao engano num lugar só humano. 
E fecho os olhos e lentamente reabro-os e fecho-os e sinto paz.
 Ocorre-me pensar algo que um velho me ensinou: Somos nós o mar; é em nós que ele habita. 
Assim é: Sou água dentro de água. Talvez seja isso a (minha) paz; quando dou a minha água à água e esta se dá a mim. 
E penso uma outra vez nesse velho sábio que me disse: Religião é religar, é unir por vontade, o que é diverso e assim é suposto ser. E dos vitrais daquela cúpula de vidro faço a minha igreja e acolho a luz como um abraço que me falta. 
Estou em paz. Mergulho e já posso ir ter comigo.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015).