segunda-feira, 27 de abril de 2015
Enquanto
Estás aí? Sim; estarei sempre aqui enquanto for aí. | Continuas aqui? Sim; estarei sempre aí enquanto for aqui. | E se um dia não mais? Não pares de rumar e de sonhar. | O que é rumar e sonhar? É fazeres da rua o mar para que eu possa voltar a este lugar. | Estás aí?..,
domingo, 26 de abril de 2015
Primeira vez
Foi no final da rua
Na dobra da esquina
Que percebi...
Demora a vida atravessar a rua
Há o passeio
O asfalto de permeio
Há o passeio
Voltar ao outro lado a buscar o que ficou desse lado do lado
O asfalto de permeio
Chegar ao outro lado e poisar o que ficou do outro lado
Uma rua e a vida para a atravessar
Um lado do lado
O lado do outro lado:
"Um-dó-li-tá
Cara de amendoá
Um segredo colorido
Quem está livre
Livre está"
O asfalto de permeio (a língua do gato é áspera como lixa e dói nos pés o que se lhes fixa)
Os passeios escorregam-nos das mãos
Os passeios e as suas calçadas Desenhadas para que os pés as leiam Mas não seguram o andar que tem o olhar
A rua tem começos e fins
Quatro sentidos:
De lá para cá
De cá para lá
Deste lado para o outro
Daquele lado para este
Uma vida rectangular
A face tem apenas dois lados
A face magoada
E a outra face que damos para que nos doa uma segunda vez,
Consentido desta vez
Consentido por uma vez
Sem sentido nenhum
A rua tem quatro faces para que corramos na ilusão longitudinal do rectângulo, mas sei bem que é um quadrado (!)
Um quadrado circular porque andamos às volta uma vida inteira para atravessá-la (a rua somos trespassados de lado-a-lado).
Mas ficamos sempre qualquer coisa no (e do) outro lado quando já deste lado estamos e voltamos uma e outra vez
(a língua que arranha também cura e amacia o pelo grés)
Menos de cada vez
Uma e outra vez
Demora uma rua inteira para fazermos uma vida
E na esquina
Vi-te uma última vez
(a primeira vez, talvez)
E percebi...
Que o rosto só se vê uma vez.
sábado, 25 de abril de 2015
Descaminho
Têm o nascer e o morrer espaço dum só; invente-se um par para cada um de nós em razão de se dividir pena, cabendo assim metade do que houvera de por natureza inteiro ser e por junto pois não têm outros carregos de monta junta para bois em número de dois? Faça-se junto o separado e do leito deleite, ou logro deliberado, pois que caminho partilhado não rouba nem légua, nem cansaço, mas desarrolha a fala e desatenta o olhar e mais ainda o pensar do fim que a cada um reserva seu próprio nascer, segredo no ouvido calado, como segredo revelado p'lo vate que ora um passo atrás, ora outro adiante faz-nos o caminho e o descaminho do berço pai à mortalha da terra mãe.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Nascentes
Para onde vão as lágrimas que choramos!? Morrem no segredo da pele. Há flores da pele. Nascem do beijo dessa chuva de nós e do corpo da terra. Pétalas de água, gomos de amor, cada uma delas, uma a uma choradas. Um dia, no último dos dias, serão todas, uma a uma, aos olhos das nascentes regressadas e não mais caladas.
terça-feira, 21 de abril de 2015
O mundo
Às vezes o mundo começa no teu ombro (onde me escondo);
Às vezes o mundo é o teu ombro, (onde me descubro);
O tamanho do (meu) mundo vai dum ombro ao outro.
sábado, 18 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Tangente
E por fim tu, meu velho. Depondo o dia asado, a máscara e a roupagem. E há um rio que te recebe no seu líquido colo. E há luas acendendo cores finais por sobre águas ventadas. E por fim tu a chegares a ti como quem se aninha na infância do que supôs começos. Assoalhadas que ressoam os teus passos e o silêncio de todas as vozes. Sim, tu, caminhante de caminhos vagos e errantes. Se por um acaso perseveras fá-lo junto ao curso, à margem, à tangente: na bainha de possibilidades. Um dia, um dia mais, um dia menos. Mais tu, menos tu...tu, meu velho que morres vivendo. E há a luz do rio e há água em ti. Nascente.
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