quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Diário de bordo
Ontem e hoje foram dias felizes. Chegar a casa e ter-te lá. Falámos, olhámo-nos no silêncio duma saudade ora rida, ora chorada. Partilhámos o mesmo homem e o que somos para além dele, com ele e por ele: o companheiro e o pai. Falámos doutro amor partilhado: um filho, esse mesmo que me é irmão. Fomos serenos e as mãos casaram no agasalho dum Dezembro novo em que procuramos sentidos novos para as coisas dos dezembros antigos. Fui filho e, por vezes, menino. Hoje és a menina que há muito não eras e por isso dissemos as ruas noutro passo. O que se ampara na noção da fragilidade mágica de cada gesto, de cada palavra, de cada memória acarinhada onde se sacia, como se pode, uma memória que nos futura num tempo já breve. É bom fazeres-me casa como dantes fazias bolos. A doçura tem os mais diversos açúcares para a temperança que traz a ternura. À noite servi-te um chá quente de amor e nos teus olhos bebi toda a minha sede de ser, seja o que for.
Filiação
Que lugar é este?
Quem sou este lugar?
Que ficou do que havia?
Pouco importa; a resposta
É sempre filha da pergunta.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Breviário
Já não estás, mas estiveste.
(Tanto tempo nesse instante)
Nada foi como dantes mas há
Sombras de luz pelos recantos
Da casa que trouxeste; aquela
Que deixaste para que nela me
Demorasse o tempo que quisesse.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Para onde o mar?
Era a maré alta
À gola da água
Onda do corpo
Todo seu caber
Sou maré vaza
Ao rés da água
Corpo afogado
No chão secado
[Para onde ido o mar?]
Sou eu que não me vejo
Era já por mim adentro
Toda essa água entrada;
Sou um tanque cheio de
Sereno contentamento.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Alvo
A boca abre a sua inteira noite
Derrama derruba crude cru as
Aves sem aviso ensaiam voos
Condenados e cantam cantos
Desalentados e pesadas asas
Pesam o peso da esperança e
Adejam lutuosas, lustrosas no
Indevido chão e corro branco
A sua bela dança final e beijo
Branco o preto manto do mar.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Um tudo-nada
O nada é uma imensidão impante
Onde não cabe coisa nenhuma;
Prefiro a península do tudo, onde
Cabem o todo, a parte e a vontade.
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