sexta-feira, 19 de junho de 2015

Nós

Claridade? O por detrás da tristeza: a primazia da chuva sobre o dia. Ficar naquele estupor, naquela página do livro, naquele primeiro som do silêncio ao fundo da casa em nós. Na boca o rumor do que não se consente falar. O frio subindo no corpo o fim da estação. 
E as mãos são folhas que aparentam gestos antigos; mãos que caem, que se estilhaçam no chão, como taças morrendo a cumprir o brinde. E há a saudade duma certa possibilidade, duma certa capacidade de entrever, para lá da poalha, o sentido festivo nos dias.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2004; 2015)

Promitente

O mundo por toda a parte 
Por tantas ruas derramado 
Tem arrimo o desalento
No sonho prometido
Assim haja ventura
E pano desfraldado
Para que siga viagem este barco
De muitas ruas por junto resulta
Esta maré de casas alvas-chãs
Onda boa gente mora 
O seu próprio rio 
Corre em sorte 
Afluente numa
Divergente noutra
Porém desaguando toda
Na voz do dia que se levanta
E todas as portas abrindo-se
E todas as janelas sorrindo 
A corrente a florir os caminhos.
O momento é agora 
Vem sem demora 
É o amor que te chama 
Pelo lado de fora.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)









quarta-feira, 17 de junho de 2015

Os dias

Há uma nudez própria no vestir, 
Como se nos disséssemos.
Duas vezes. 
O sermos contáveis: 
Uns (a)diante dos outros. 
O que dizemos e calamos,
Faces da moeda de troca: 
ocultando proferindo, 
revelando omitindo. 
E vamos a terreiro na busca de relevância: como fazer os dias? 
Para quem e quem somos? 
Se me disseres sol:
dir-te-ei pele; 
Se me disseres vento;
dir-te-ei galope; 
Se me disseres, 
Dir-te-ei.


terça-feira, 16 de junho de 2015

Voo picado

No 'depois' é-se anfíbio e tudo é uma realidade líquida e difusa e o mundo é o rumor da superfície. Quando este adormece assomo à noite e plano a imensidão horizontal. Ao giz inicial da claridade mergulho vertical a matéria prima do mar, traço inicial. 



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os dias

Não é que os dias não sejam dias na mesma. São-no. E, contudo, duma sorte que não sei explicar, muito menos para mim mesmo, parecem cópias perfeitas de dias e, assim sendo, ou assim me parecendo, o não são, ao fim ao cabo. Roupa emprestada - é essa a sensação; aproximada e imprecisa noção. Amanhece e anoitece; amanheço e anoiteço na sua baínha, assim como a sombra caminha a par da matéria e no favor da luz. Nem alegre, nem triste. Muito menos ausente, pois que seria estar, duplicado, num outro lugar; e não estou. Alhures quanto nenhures. Por vezes, há recessos onde o mar nos entra adentro e nos acolhe e nos chama para uma breve noção de pertença e depois, na maré vazante, nos restitui ao antes, a um sempre eterno agora. Aprendo que há lugares intermédios; aprendo o afago guloso do silêncio que nos chama para si. E no silêncio estendemos-nos, como um corpo que encontra repouso na mesma cama daquela manhã ou duma outra imprecisa manhã. Nem sono, nem vigília. E no silêncio vão cabendo todas as palavras e também as vozes que se deram a ouvir, e todos os gestos voantes ora regressados ao ninho inicial. E cabemos nós, deixando o tamanho antes de o entrarmos. E se o silêncio contém a luz e assim esta no que tem de escuro, também nós nos contemos. Por vezes atemo-nos, por vezes contamo-nos. Por vezes, nem uma coisa, nem outra. E a lonjura é um lugar - pouco importa se perdido ou desejado; pouco importa se é pretérito mais do que perfeito ou imperfeito ou futuro ou uma corda, que é viagem ou regresso. A lonjura é o silêncio da distância e nenhuma delas é nossa. A ser, sê-lo-iam ao contrário! Mas se "um galo risca o silêncio e já é manhã", então, de propósito ou por lapso intencional, a porta (que é sempre um janela para os pés dos olhos) está entreaberta e vou sair... Nem daqui, nem para aí. Sair: a única forma que conheço de voltar... 


domingo, 14 de junho de 2015

Por ti

Possas tu
Parti (por ti)
Quisesses tu salvar-me [de mim]
Vem abaixo da pele e abre portas para que possa sair [de mim]
Acende a manhã porque se fez noite [em mim]
Vem buscar-me porque fiquei aqui 
Neste lugar de ontem.
Dá-me um céu para onde olhar e sair possam do mesmo chão estes pés feitos para outro caminhar
Dá-me a mão, como o farias a um cego, e dar-te-ei eu a minha e seus rios de amar
Dá-me o teu silêncio e serei (nas) palavras inauditas 
Diz-me como regressar-me e (para) quem sou. Reparo que vivo. Mas, sabes, é por fora que vivo. Quando regresso em noite e quando me deito há casa e cama mas não me sei, nem para onde;
Percorro a noite até a cansar, para que por fim me deixe dormir e volto a ti, como um evidência, como o lugar que fui. 
Naturalmente haverá uma manhã e serei amanhã sem amanhecer e imitarei o dia até ao fecho do seu arco. 
À saída da barra, donde a viagem, e os olhos longos e os cabelos, teus, na moldura do rosto, revoltos como as aves do séquito, vi-te, assim, inteiramente tu, e soube da alvorada e fui, ali, naquele preciso momento, feliz; como antes, como, talvez, depois.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2013/15)

Azul

Há uma altura em que, por esperança ou ingenuidade, achamos ter fintado a onda; perdemo-la de vista e logramos ultrapassado o que é apenas a sua própria pausa. É nesse preciso instante que aquela desaba no seu fio de espada e nos entrega ao abraço fundo do seu líquido frio azul.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)