terça-feira, 14 de abril de 2015

Imaginado

Andarilho do tempo em que voava 
Fui cavaleiro no caminho da espada 
Envelheci nos campos a madrugada
E esgotei em terra a busca do mar 
Da alta barca marinheiro 
Na proa do vento soube da chegada
E imaginado teu rosto assim este desenhado e da cama salgada levantado e a mim trazido como pescado teu corpo respirado na boca ao rente do calado 
Nem o partido, nem o chegado
O naufrágio foi o viajado. 

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2015)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Agulha

O que é o passado, em ti? Aquilo que a um tempo foi futuro;
O que é o futuro? Aquilo que a que a um tempo será passado;
O que te é o presente? Nas ferrovias a agulha determina o rumo a seguir; o presente é isso: a agulha!

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2014; 2015)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Degustação

E vieram. Têm vindo. Os dias solares e as ruas da cidade (como sou dela!) com vida(s) e gentes daqui e dali, os cafés, os jornais do dia, os namorados (novos, velhos e assim-assim) teimando o Amor e o enlace das mãos e dos olhos. As velhotas debruçadas na moldura das janelas que me dizem 'bom dia menino' e as vagas da noite com caras de ontem, copos resistentes no seu vazio e aquele cigarro embriagado e o café redentor! As árvores e suas sombras que põem rendilhados nos passeios por onde passo. Sem pressa, sem rumo, a degustar o primeiro travo do dia. No meu porta-corações trago a música das palavras dos poetas com que aprendo os sinais ocultos do viver-se e essa imensa casa portátil que são todos quantos gosto."

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2014) 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Talvez

Ficara (sentia-se) diferente. Sem o sentido preciso dessa mudança. Nem timorato, nem afoito, nem o meio termo entre uma coisa e outra. Uma nuance, uma velatura caindo delicada por sobre os dias e estes por sobre mais dias. Ainda assim, inominado esse devir. Um tempo longo, alongado como um felino se alonga no desengano da preguiça. Um tempo chão. Ou tempo breve, ou um não-tempo. O tempo apeado de si. Todo e nenhum. Sono e vigília. O que é o meio do meio? O eixo tombado, e tudo de viés, dias oblíquos. Dias possíveis. Estava diferente: A derramar-se, talvez a evaporar-se... Talvez...

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2014) 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

a(mar)

Em ti o que é o Amor? É quando me dou a ti em destroços e me devolves ao mar em cada sucessiva manhã como se barco novo fosse. 
E em ti, amas-me? Há um único porto cujo carpinteiro conserta salvados e os revive. O mar sabe-o e nas marés dos seus braços a ele me conduz!
Só a terra sabe o mar. 
Só a terra sabe a mar.

(c) Filipe M. | texto (2013)

domingo, 5 de abril de 2015

Visita

Quando me visitas há janelas que se fecham ao vento e apenas depois, tão depois, sei que de lado a lado, de cima a baixo, há traços a lâmina desenhados do ir e vir das tuas mãos obliterando o meu corpo para que não mais o mesmo. Talvez um outro, outonalmente cansado, que não este: o desse exultante verão, como se dissesse branco, como se dissesse braços sugerindo um outro céu.

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2014; 2015)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Impretérito

Nunca o Amor será pretérito mais que perfeito. É-o, creio, quando olhos bons abraçam o nosso lado mau e o trazem para a luz boa que nos aceita inteiros e falhos, como é suposto. Se há porventura sol nos céus será cópia desenhada daquele que expedimos quando nos perdoamos, quando nos damos, quando amamos, quando sonhamos a arte do possível, quando nos sujamos de vida e dizemos que a mácula é a mais Bela das palavras. Sem de nada me arrepender, arrependo-me às vezes de não me ter percebido, de não te ter entendido, de não vos ter ouvido. E no entanto, desdigo tudo isto! Caramba: estou vivo e feliz, talvez por tudo isso. De assim ser em vós e, melhor ainda, quando vocês são em mim: braços que dão mãos, mãos que dão flor, flor que se abre em amor. (2013)

(c) Filipe M. | texto.