sábado, 28 de março de 2015

Teatro do mundo

Se bem reparares as aves têm rumos que deixam no ar traços de pleno voo. Sim, há segredos. Se bem repares os corpos dão-nos mapas são caminhos: da boca à boca, das mãos às mãos, dos olhos os olhos. As árvores encimam sombreiam vestem-se e despem-se da folhagem e são estações quatro vezes por quatro distintas razões de ser uma só. Os rios são do mar e ambos num só são lugares para que possamos nadar as nossas próprias correntes e delas nos libertarmos, desenhando a traços de espuma rumos com verdade. 
Sim há segredos! Se bem reparares os corpos falam: a boca nascente da boca, a mão abrindo-se da mão e os olhos em flor. Se bem reparares cavalos bravos e livres com suas longas e horizontais crinas de vento sulcam altivos e verticais a invernia e o chão, como um tambor, repercute a leveza da dança pagã dos seus pesados cascos e rumam alados com as suas inexistentes asas aos esplendores dos céus. 
Os corpos são segredos: fundem-se e refundam-se num bazar de bocas, mãos e olhos; são cordas instrumentais que produzem sons de amor e clamor. 
E ressoa uma voz, a voz mesma que convoca os dias e as noites, que nos concede e tira que eleva e derruba que nos dá o alto e o raso e, por fim, se cala. E somos sós e meninos e medo mudo no esplendor do grande segredo do teatro do mundo.

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2013, 2015) 






sexta-feira, 27 de março de 2015

Azul atingido

"No pleno do céu, em ascensional rumo, de tiro acometida, a ave ainda assim voou no azul do pano, de lado a lado estendido, e sorrindo, assim soubesse, caiu por sobre o branco do papel de vermelho atingido." 
Posfácio (2013)

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2013; 2015)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Passageiro

Tudo é frágil; tudo é precário; tudo é passageiro. Porque é isso que somos: passageiros. 
Nada é nosso; nada damos, nem nada nos é dado. Emprestamo-nos, uns aos outros; proporcionamo-nos, uns aos outros. 
E este tempo de gerúndio que vou vivendo tem trazido mais do que alguma vez pedi ou sonhei para mim. 
E, porque tenho tido sorte, acreditei apenas sempre mais uma vez das muitas vezes que desisti. Pequenas mortes, pequenas ressurreições numa vida-viagem feita de passageiros que me dão amor, amizade, ralhetes e que me ensinam os lugares do mundo. 
E aprendo (a custo!) que a tristeza e a felicidade são tempos e termos transitivos. Eles podem ser os veículos, mas sou eu o condutor! 
[Dezembro, 2014]

(c) Texto & Fotografia | Filipe M. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Contudo

Não. É ao contrário! 
Falo apenas por mim, óbvio. 
A ficção imita, mal, a realidade. Quantos dias de sol trago na algibeira da alma quando desaba por fora de mim (como hoje) a mais tremenda das borrascas e outros há em que tudo é sol e trago eu chuvas imensas! 
Que deverei tomar por real e, em seu extremo de mão dada, por irreal? Se trago sol é a chuva por lá de fora que é para além de mim; e, do mesmo modo, o seu contrário. 
Da mesma sorte: quando o inesperado (sobretudo o bom) nos sucede é tão demasiado real que violenta a ficção que dele criámos. E retalhamo-lo em pequenas parcelas e recriamo-lo. O único acto de traição não é traduzir; é concretizar - uma pessoa, um acontecimento, só nos é real (real em nós, mais do que para nós) quando o 'desreslizamos'. Depois parametrizamo-lo, deglutimo-lo, enzimamo-lo até ser nosso. 
O sol dá-nos a luz e, contudo, o não vemos. É por via dele a percepção mas tudo o mais são os nossos olhos e deles os seus olhares. Sucede amiúde não vermos o defronte e vermos, tangente, o adiante. Hoje chove e todavia não chove porque me amanheceu sol.

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2013; 2015)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Chegante

Apenas por distração poder-se-á achar que há tangentes feitas de palavras e de gestos que nos trazem a nós essa pessoa outra; inteiramente trazida. Pessoa em nós. Pessoa alastrada em nós como o caudal do rio no encalço da foz. Não. Nunca é chegada. É chegante. Como um prenúncio ou o murmúrio duma ideia de Ser. É és isso em mim. Inaugural sem desfecho. Alvorada sem ocaso. E talvez que em céus partilhados iremos tecendo as palavras do nosso agasalho. (2014)

(c) Filipe M. | texto (2014)

domingo, 22 de março de 2015

Metade

Se me dão a flor p'la metade não é a flor que é metade daquilo que é - ela é por si e em si inteira. Nem tão-pouco me é ela p'la metade pois que a tenho inteira em mim. Quem assim ma deu é que metade do que julga inteiro. (2012)

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2012, 2015)

sábado, 21 de março de 2015

Casa

Pelos poros do silêncio da casa pontuam sons residentes: os estalidos do soalho, o drapejar da roupa que se estende pela corda exterior, o estático dos electrodomésticos e a cadência da respiração de quem ainda dorme a vestir o frio insinuante para lá de paredes e janelas. A cafeteira ao lume acende o dia como um tranquilo ritual de passagem e há o aroma das torradas, do mel e da canela e da maçã que corto pela metade. E há o estar aqui; o gostar de estar aqui; o gostar de estar este momento. De fazer demoradamente estes gestos e este momento. Estou comigo; por casa. Esta casa nova. Uma casa antiga que me faz novo. Creio que inicialmente ter-me-á estranhado. Por vezes, questiono-me se a sua prudência inicial em dar-se(-me) mais não foi que uma avaliação a que, sem o meu conhecimento, estive sujeito. Isto é, o descortinar ela se me predispunha eu a que fosse 'a minha casa' ou, ao invés, fosse 'da casa'. Sou dela; cedo o percebi e percebeu. Desde então, damo-nos como amigos de sempre: cuido dela e ela de mim. Sem posse. Prefiro pertencer! É uma casa de gente (afã de idas e vindas), de afectos que guardam histórias que reconta na vigília do nosso sono. Se a rua é palco, por casa sou camarim. E sou eu muitos e nenhum. Por um tempo, sem o tempo confinante do relógio. E há o olhar que se detém aqui e ali, desprendido e curioso e filho do ócio ameno dos pequenos afazeres. Pequenas viagens do vaguear da mente pelo presente e passados e no giz da ardósia que encima uma das bancadas laterais garatujam-se projectos de futuros breves: o final de manhã, essa mesma tarde que se adiantará pela noite. Sou por casa sou no seu aconchego. Oiço barulhos. Portas de quartos que se abrem e na cozinha já desaguam conversas das vésperas de cada um. Digo 'Bom dia!' e dizem-me 'Bom dia!'. Vai ser! ;)

(c) Filipe M. | texto & fotografia (2015)