domingo, 7 de junho de 2015

Limão

Se pudesse, estendia a manhã na corda da roupa. O cheiro a alvura-limão das peças ondulantes sob a batuta do vento brando. Do lado de dentro da janela, no aconchego da casa, passeio memórias: breves. Chegam como visitas só de passagem, deixando no ar aromas femininos. As memórias são gatos; lugares de casas sem dono. Vêm ao colo e partem logo. São delas mesmas. E há um travo agridoce de tristeza e de alegria. Acendo o cigarro que arde rubro nos dedos e imagino afagos e destinos na planura da tua pele onde e donde, como pista doutros voos, chegavam e partiam estas mãos que, dum certo modo, já foram minhas. 
Todavia, há uma janela 
E defronte a cidade. 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2014; 2015)

Parto

Há um rio por dentro 
Que nos chama 
Desde a nascente. 
Reclamar-nos-á na foz

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2014)

(II)

Se me disseres sol 
Dir-te-ei: pele; 
Se me disseres vento, 
Dir-te-ei: galope; 
Se me me disseres
Dir-te-ei.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2014)

sábado, 6 de junho de 2015

Retrato

E quando a chuva parou o sol reincidiu sobre a matéria e abriram-se os aromas da terra, das madeiras do casario e do redor de árvores e flores e voltámos às ruas. Assim te amo; assim te retrato; assim me chegas. O teu nome? Sim sei-o (para mim): 'e quando a chuva parou o sol reincidiu...'

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)



quinta-feira, 4 de junho de 2015

Os (a)braços da alegria

Às primeiras horas da manhã de hoje a luz era dum tímido azul com resquícios de noite e o frio continha com precisão os traços da praça. Os pássaros pontuavam a calçada e um ou outro ensaiava um breve voo. Os candeeiros acesos diziam ainda do ontem que alumiaram e naquele café caras que fui fixando e as suas mãos procuravam calor no fundo dos bolsos. Gente de cabelos encanecidos e rasgos duma outra cidade. Um velho vadio transportava pertences como se duma casa habitada ao relento se tratasse - figura esguia, de vertical dignidade. Há um rumor de trânsito mais adiante e inoportuno nesta pequena cidade de prédios débeis. Foram breves instantes; foram-me belos e trouxe-os comigo e tenho-os rememorado: a luz inaugural e pé ante pé saí. Nada é nosso e talvez por isso aceitei, grato, o empréstimo e lembrei-me dum verso que dizia: "inventei um sol para dar luz a este dia, acordei nos braços da alegria" e é verdade...

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2014)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

À varanda dos Olhos

E no rosto um sorriso esquecido. Ninguém o viera reclamar. Contradizendo o olhar, foi ficando. Isso: às vezes há barcos represos nos baixios da praia-mar com as suas madeiras desbotadas e bainhas de limos como o rímel na varanda dos olhos e as suas proas decaídas em areais sem gente. 
Assim tão perto do mar e, 
No entanto tão por terra. 
E assim aquele sorrir, 
tão perto dos olhos e, 
No entanto... 
Por enquanto. 
Por encanto...

(c) Filipe M. | Texto e fotografia (2014)

terça-feira, 2 de junho de 2015

Amanhã?

Hoje a casa; irei sozinho. 
Hoje a cama; levanto-me. 
Hoje calo; narro eu.
Hoje a vaza; nado eu. 
Hoje ontem; amanhã eu.
Hoje baixo; eu e o céu da chuva. 
Hoje sem ti; eu por mim. 
Hoje jejum; amanheceu um jardim.
Hoje finjo; amanhã num palco. 
Hoje morri; só eu vivi. 
Hoje porventura; eu e um outro dia 
Hoje pedi; e manhã sem ti. 
Hoje dou-te a luz; a noite é o fim. 
Hoje dos olhos; nasci. 
Hoje a rumar; fiz da rua o mar.
Hoje sonhar; triste no acordar
Hoje teu 
Hoje ateu
Hoje adeus 
Hoje escureceu 
Hoje apenas eu 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)