domingo, 17 de maio de 2015

Avessocitudes

O cão passeia a trela e a trela passeia o dono da trela do cão atrelado; os pés passeiam o coração e o coração passeia a cabeça (tomada aqui por razão) e esta não é dona nem daquele, nem tão pouco daqueloutros. Dizer o contrário seria crer que os começos têm fim quando a maior parte destes não! Desde quando os pés no chão e a cabeça no ar!? Um avesso muito improvável.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)



sábado, 16 de maio de 2015

Matilha

Corro p’la ruas desertas no limite das forças. No encalço, como a onda inexorável devorando a língua de areia, a matilha açulada. Sei que vou cair; inevitavelmente cairei. Exsudo um cheiro ácido (a medo) que a atiça mais e mais. Um primeiro abocanhar: caio. Depois o festim rápido e tudo tingido-se dum vermelho pastoso que, sem surpresa, sei ser o meu sangue. E o corpo a transformar-se noutra coisa, e uma cortina leve turvando o olhar, retirando-me dali. Já não sou eu quem ali jaz. Sou agora vário e vago na matilha que, saciada, corre por outras ruas da cidade que, horas antes, olhei com um estranho e premonitório sentido derradeiro.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2002; 2015)

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Onde?

Onde está a tua mão?
Lembro-me que a tua vinha buscar a minha e pelo caminho dos braços à cama tirado entrávamos o mar. 
Onde está a tua segunda mão? 
Lembro-me que escorava o meu corpo que trazias à taça da boca.
O sol arde a pele e há demasiado azul no céu; sabes o quanto me derrota a planície da memória sem a água precisada. Lembras-te!? Pedia-te as mãos para agarrares o medo no seu galope desafrontado e eu sempre assustado; bem vês toda esta vastidão do mundo e aquela praia a sul na sua noite onde os teus olhos me ouviam está tão, cada vez mais tão longínqua. E juro que a trazia comigo com carinho como a tudo o mais que me chegavas. 
Onde guardas a cama do meu corpo? Parece-me cansado do tamanho imenso da madrugada na espera da tua chegada demorada. Durmo o meu corpo (na vez do teu) sem a noite em que nos líamos de luz apagada. 
Lembras-te duma história que me contei julgando-a inventada: aquele barco que fez de nós viagem e os teus cabelos revoltos na cortina dos olhos meninos que traziam colo e a amurada onde tudo se expandia na dor da alegria da pessoa que se sente amada. 
Por onde, para quem os teus olhos para mim? Dos teus olhos o seu olhar ou a sua água de praia-mar a lamber em ternura os pés à chegada. As coisas vão-se arrumando e há regressos emalados, todavia não há albergue capaz para o que se destamanha e confesso... 
Confesso-o, miúdo na falta apanhado: nem tudo fiz como me pedi: quando foste... bem... foste e ainda não te devolvi, nem eu a mim. 

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)




sábado, 9 de maio de 2015

Tamanhos

A tristeza não é um hábito;
A tristeza é o corpo no entorno da faca
E por sobre o punho fechado do metal cravado poisou a tua mão 
Abrindo cada dedo dos cinco que tem a mão como a flor no prazer 
E do medo que crescia apunhalado nasceu a mão irmã e, uma com a outra, juntas, fizeram o tamanho do coração 
Fez-se dia p'lo cansaço da noite. 
Fez-se de amor o cansaço da dor. 

(c) Filipe M. | texto e fotografia 


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Infame

Gostar de ti é uma infâmia que acarinho. Sandice! Sei-o; isto é: sei até certo ponto. Só não sei o que é o ponto. Dito doutro modo: não sei o para lá do ponto. Fiquei em ponto-morto; pesponto mal alinhavado dum novo fato em que me sobro ao pano; ponto-cruz e seu carrego; ponto-de-embraiagem porque é preciso mudanças, dizem-me, como quem diz andança ou prego a fundo como Cristo no madeiro erguido. Bem vista a coisa, porque, duma sorte ou doutra, é preciso reviver assim como quem diz morrer sem morrer de verdade para voltar a nascer. E se revivo dessa falsa partida (por pouco  a desqualificação!) ando morto-vivo, porque do estado sólido e do líquido vai o gasoso e dizer isto é falar de nuvens, feitas caminho e daí o andar nelas ou é falar da Lua que é também via pois do mesmo modo se diz aluado. É isso... o gostar às vezes é estrada, outras desgosto e despiste, contudo estrada na mesma porque o carro também anda de marcha-atrás. Mas que fazer!? A cabeça manda no corpo, quando pode, enquanto pode; mas não pode o corpo o contrário. Dizem que é para esquecer! Pedra-pomos, limas, berbequins, contraplacados, desterros. Enfim, arremedos. A coisa vai. Mas vai por si. Autónoma. É hóspede, paga quarto e contas; tem direitos adquiridos. Creio que é regime de co-habitação e de despejos gastei a conta e fundos de caixa, não da liquidez em falta, por abrir porque custa colocar vidas em taras perdidas. Gostar de ti não sei o que faz de mim!? Gostante? (existe!?) Degustável está visto que não. Destestavál!? Nem tanto, caramba! Viável!? São glaucos os meus olhos, e vêem sítios altos aonde não chego eu ao baixo, talvez seja quando baste. Talvez seja assim.

(c) Filipe M. | texto e fotografia 



segunda-feira, 4 de maio de 2015

Agora

Quando dizia 'manhã' era a manhã que mo dizia. E de facto era manhã o que prometia. E a cama era uma saudade que se cumpria no ar da rua da janela que se abria. E eu ia. Ia p'lo caminho novo que sorria. E quando chovia, assim como hoje, como a manhã de hoje, como no preciso momento de agora, abria um chapéu que havia, todo ele de céu, todo ele de azul poesia, e eram lágrimas de alegria o que dizias. E era um contentamento molhado de roupa despojado e lembro-me como se hoje, como se agora, como se por dentro, que ambos, jograis da nossa própria folia, corríamos a agarrar ontens e amanhãs para que aquele momento; para que fossemos apenas e só aquele momento. A saudade não foi ontem; a saudade não foi amanhã. A saudade é esta manhã; esta manhã de agora. Agora.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2015)

sábado, 2 de maio de 2015

Combustão

Um pequeno ponto vermelho único sinal (ardente) no quarto. Sem luz, preto mote lhe pus - para que nada entrasse ou saísse. Esparsas combustões rubras reavivando o cigarro aceso. Um pequeno ardor nos pulmões dizendo o meu corpo naquele lugar. Um ligeiro entorpecimento, uma náusea momentânea, sintomas do excesso. Mas há sempre a esperança de que ocorra alguma coisa, de que surja uma revelação, de que se desprenda de uma zona secreta de mim uma resolução sábia, um sortilégio varrendo áreas inóspitas. Inçar, como promessa, os dias de coisas bonitas ou flores brancas nascendo várias e sem ordem nos campos. Esse borrão ensanguentado, traído pelo fundo preto do cenário e eu entrevendo uma possibilidade para mim, algo que valide os dias que faço; um outro lado que acolha a contradição constante em que me vejo de querer e não querer a vida que me coube em sorte. Se me levantar, se acordar e se apagar o cigarro que me faz falar estando eu calado, se me vestir, se me contrariar, se me permitir chorar, se o meu corpo o consentir, deslizarei até aquela luz crua lá de fora, para lá da porta, e os meus olhos míopes, se ainda capazes, dir-me-ão as coisas pequenas da vida. Se de pés firmados no chão de rua me souber, se conseguir aprumar o corpo como a criança fascinada que descobre estatura e passo, deixarei, sem olhar para trás, este espaço que me tem refém.

(c) Filipe M. | texto e fotografia (2002; 2013)